Sim, pode, e muita família só descobre isso na hora de lavrar a escritura. Quando os pais moram em São Paulo e doam um imóvel ou dinheiro a um filho que vive no exterior, o imposto da doação (ITCMD) continua devido ao Estado de São Paulo. E há um detalhe que poucos conhecem: como o filho não mora aqui, a lei paulista transfere para os próprios pais a condição de contribuintes do imposto.
Morar fora não tira a doação do alcance do Fisco paulista. Às vezes, só muda de quem ele vai cobrar.
Se eu moro fora, qual Estado cobra o imposto da doação?
Depende do bem. Se for imóvel, o imposto é sempre do Estado onde ele está (norma do artigo 155, § 1º, I, da Constituição). Por isso, a lei paulista cobra o ITCMD sobre a doação de imóvel situado em São Paulo mesmo que doador e donatário não tenham domicílio aqui (artigo 3º, § 1º, da Lei estadual nº 10.705/2000).
Se for dinheiro, aplicações ou outros bens móveis, vale o domicílio de quem doa (artigo 155, § 1º, II, da Constituição). É dizer: pais domiciliados em São Paulo que transferem recursos a um filho no exterior fazem uma doação tributada por São Paulo (artigo 3º, § 2º, da Lei nº 10.705/2000).
Quem paga o imposto: eu ou meus pais?
Aqui está a surpresa. Pela regra geral, quem paga o ITCMD na doação é quem recebe, o donatário. Mas, nos termos da norma do artigo 7º, parágrafo único, da Lei nº 10.705/2000, se o donatário não residir nem for domiciliado no Estado, o contribuinte passa a ser o doador.
Explica-se: como fica difícil cobrar de quem está no exterior, a lei desloca a obrigação para quem está aqui. E o filho não fica livre: ele responde solidariamente pelo imposto (artigo 8º da mesma lei). Na prática, a família toda precisa planejar a doação, e não apenas quem recebe.
Quanto custa doar em São Paulo?
A alíquota é de 4% sobre o valor dos bens (artigo 16 da Lei nº 10.705/2000). Numa doação de imóvel de R$ 500 mil, o imposto é de R$ 20 mil.
Há isenção para doações de até 2.500 UFESPs, o que corresponde a R$ 96.050 em 2026 (artigo 6º, II, "a"). Fique atento: para verificar esse limite e calcular o imposto, a lei soma todas as doações feitas pelo mesmo doador ao mesmo donatário dentro de cada ano civil (artigo 9º, § 3º). Dividir uma doação grande em várias pequenas no mesmo ano não reduz o imposto.
E se pai e mãe doarem juntos?
Cada doador faz a sua própria doação. A soma do artigo 9º, § 3º, considera o mesmo doador e o mesmo donatário, de modo que a doação do pai e a da mãe são transmissões distintas, cada uma com a sua base de cálculo. Na prática, porém, há detalhes operacionais, como o preenchimento da declaração e da guia de recolhimento quando o donatário mora no exterior, que merecem conferência caso a caso, e, se necessário, consulta formal à Secretaria da Fazenda, prevista no artigo 31-A da lei.
Se eu fizer a saída definitiva do Brasil, deixo de pagar?
Não. A saída definitiva muda a sua residência fiscal para o imposto de renda, mas não altera a regra do ITCMD: com imóvel em São Paulo ou doador domiciliado aqui, o imposto continua devido ao Estado. Falamos sobre a saída definitiva em Você mora fora, mas para a Receita ainda mora no Brasil?
A regra pode mudar?
Pode. A Reforma Tributária (Emenda Constitucional nº 132/2023) tornou o ITCMD obrigatoriamente progressivo, e a Lei Complementar nº 227/2026 trouxe normas gerais sobre o imposto, inclusive para doações e heranças com bens ou pessoas no exterior e para a soma de doações sucessivas. São Paulo ainda precisa adaptar a sua lei, e qualquer aumento só poderá ser cobrado a partir do exercício seguinte ao da publicação e após noventa dias (artigo 150, III, "b" e "c", da Constituição).
Acrescente-se um ponto que costuma passar despercebido: o imposto de renda. Se o imóvel for doado por valor maior do que o declarado pelos pais, a diferença pode ser tributada como ganho de capital. Vale planejar os dois impostos juntos.
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Na nossa visão, doação para filho que mora fora precisa ser planejada pelos dois lados do oceano: quem paga, quanto paga, em que ano, por qual valor e como os recursos chegam ao exterior. Bem estruturada, a doação antecipa a sucessão e evita o inventário daquele bem; feita no improviso, pode gerar imposto em dobro, multa e discussão entre irmãos.
Perguntas frequentes
Quem mora no exterior paga ITCMD ao receber doação de imóvel em São Paulo?
O imposto é devido a São Paulo, porque o imóvel está no Estado (Lei nº 10.705/2000, art. 3º, § 1º). Como o donatário não reside no Estado, o contribuinte passa a ser o doador, e o donatário responde solidariamente (arts. 7º, parágrafo único, e 8º).
Qual o valor isento de ITCMD na doação em São Paulo?
Doações de até 2.500 UFESPs, R$ 96.050 em 2026 (art. 6º, II, "a"). Para esse limite, somam-se as doações do mesmo doador ao mesmo donatário no ano civil.
A saída definitiva do Brasil livra do ITCMD?
Não. Com imóvel em São Paulo ou doador domiciliado no Estado, o ITCMD continua devido, ainda que o donatário seja não residente.
Qual a alíquota do ITCMD na doação em São Paulo?
4% sobre o valor dos bens (Lei nº 10.705/2000, art. 16). A Reforma Tributária exige que o imposto passe a ser progressivo, mas São Paulo ainda não alterou a sua lei.
Conclusão
Retomando ao título: sim, a conta do imposto pode cair no colo dos seus pais. Quando o filho mora fora, a lei paulista faz do doador o contribuinte do ITCMD, e o filho responde junto. Com planejamento, a doação vira uma ferramenta segura de sucessão; sem ele, uma surpresa cara no cartório. É essa a lógica do Método Patrimônio Protegido®: diagnóstico, proteção, estruturação e sucessão, inclusive para famílias com um pé em cada país.
Material produzido com muito carinho para você, caro(a) leitor(a). Se você conhece alguém que mora fora e tem família no Brasil, compartilhe.
Fontes: Constituição Federal, arts. 150, III, e 155, § 1º; Lei estadual nº 10.705/2000, arts. 3º, 6º, 7º, 8º, 9º, 16 e 31-A; Comunicado DICAR nº 88/2025 (UFESP 2026, R$ 38,42); Lei Complementar nº 227/2026; Migalhas, "ITCMD sobre bens no exterior: a LC 227/26 encerrou a janela de planejamento?" (setembro de 2026).
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